A desaceleração da economia mundial tem afetado o mercado acionário, mas não contagiou as commodities, tampouco os preços do minério de ferro, que ficarão estáveis no último trimestre do ano, disse o presidente da Vale, Murilo Ferreira.
‘Este assunto de crise na Europa e nos Estados Unidos até o momento passou longe do minério de ferro, não tivemos cancelamento de nenhum pedido, de nenhuma data de embarque’, afirmou em entrevista à Reuters o executivo nesta quinta-feira.
Ele destacou que nem o aumento de juros, aliado a medidas macroprudenciais na China, conseguiram derrubar o consumo do país asiático, o principal mercado para a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo.
Os preços do minério de ferro durante a crise iniciada em agosto, segundo ele, oscilaram de 179 dólares a tonelada para 177,50 dólares e hoje estão acima de 182 dólares.
Considerando valores praticados no mercado à vista durante todo o terceiro trimestre, as cotações para o último trimestre não vão se alterar, afirmou.
‘Estamos muito contentes porque isso significará que nós teremos conseguido reduzir a volatilidade na precificação. Nós não vimos essa crise; o mercado de minério não viu essa crise passar’, concluiu.
LUCRO E SUSTENTABILIDADE
Ferreira completa em setembro quatro meses à frente da Vale, substituindo a longa administração de Roger Agnelli, que ficou cerca de dez anos no comando da mineradora.
O presidente da Vale afirmou que a gestão da empresa pouco mudou desde que assumiu, mas admitiu que tem tentado dar um tom mais humano nas relações entre a empresa e os funcionários, com mais foco em segurança do trabalho.
Antes de presidir a Vale, ele trabalhou por 11 anos na companhia de onde saiu por um suposto desentendimento com Agnelli.
‘Evidentemente, tenho meus conceitos em termos de retorno ao acionista… também quero que a Vale seja campeã em sustentabilidade e adoro que as pessoas se sintam felizes onde estão trabalhando’, disse.
Ele fez questão de afirmar que não foi escolhido pelo governo, mas sim pelos donos da empresa –entre os quais o Bradesco e o fundo de pensão Previ.
Para o mercado, Murilo Ferreira assumiu a presidência da Vale com a missão de conciliar interesses de mais de 4 milhões de investidores com a benção do governo brasileiro, que não andava satisfeito com a gestão do seu antecessor Roger Agnelli.
ATRASO POR LICENÇAS
Grandes projetos aprovados pelo Conselho de Administração da companhia, como a expansão de Carajás, têm sofrido algum atraso por conta da demora para a liberação de licenças ambientais.
A questão das licenças, segundo ele, é um dos motivos para a não concretização de todos os investimentos de 24 bilhões de dólares previstos para este ano.
‘O ano da Vale em vez de 12 meses vai ter 15 meses’, afirmou.
Ferreira afirmou que a revisão do orçamento para 2011 ainda não foi fechada. Segundo ele, os números serão conhecidos na última semana de setembro.
O projeto de potássio Rio Colorado, por exemplo, na Argentina, que inclui mina, ferrovia e porto, envolve vários acordos com províncias, citou. ‘Acabou com um certo atraso. Estamos bem alinhados, só falta um acordo. Afinal é um projeto de 6 bilhões de dólares’, disse.
O projeto de engenharia para Rio Colorado foi concluído, e as obras de terraplenagem já começaram.
A ampliação de Carajás, no Pará, por meio do projeto Serra Sul, que prevê a duplicação da produção de minério de ferro, para 230 milhões de toneladas por ano em 2015, aguarda autorização do Ibama, órgão ambiental do governo.
‘O projeto fica em uma região ambientalmente sensível e temos que dar todo o respeito que o meio ambiente merece em plena floresta amazônica’, afirmou.
Ferreira prevê que em 2013 a produção da região vai chegar a cerca de 140 milhões de toneladas.
PETROBRAS PODE VENDER MINA
Outro projeto relevante para a mineradora, a expansão da exploração de potássio em Sergipe aguarda um acordo com a Petrobras.
Ferreira revelou que a petroleira poderá ceder –e não apenas arrendar– os direitos minerários da região para a Vale.
A mineradora poderá pagar por essa ‘cessão’ um valor que Ferreira não especificou. ‘Fomos informados pelo presidente da Petrobras que eles não têm interesse no potássio nem no fosfato’, afirmou.
Segundo ele, as empresas não estão negociando uma transação de troca de ativos, que envolveria uma fábrica de nitrogenados, mas sim uma operação simples de venda ou de arrendamento.
‘Dissemos que estamos analisando em conjunto com a Petrobras a planta de Araucária (PR), negócio que está desassociado do projeto de carnalita’, disse. ‘Se for compra, cessão, vai receber dinheiro. Se for arrendamento, vai receber uma mensalidade’, explicou Ferreira.
A Vale já explora a mina do mineral arrendada da Petrobras em Sergipe desde 1991 e produz cloreto de potássio a partir dos sais de silvinita, num volume de cerca de 700 mil toneladas anuais.
Com um acordo com a Petrobras, a produção em Sergipe poderá mais que triplicar, segundo o executivo. O projeto de exploração de carnalita, um tipo de sal de potássio, a uma profundidade de 1,2 mil metros, poderá ser de 2,2 milhões anuais de toneladas.
Atualmente, o país importa mais da metade do insumo de fertilizante para dar conta de suas necessidades.
SIDERURGIA
Ferreira disse ainda que os projetos siderúrgicos da mineradora no Pará e no Ceará devem deslanchar ainda neste ano, conforme o previsto no seu plano de investimentos.
Numa parceria com a Dongkuk Steel e a Posco, a Vale vai iniciar o desenvolvimento do projeto CSP, que engloba a construção de uma planta de 3 milhões de toneladas de placas de aço no Ceará. O início das operações está previsto para 2014.
Outro projeto que começará a ser implementado ainda neste semestre é a construção de uma planta siderúrgica em Marabá, no Estado do Pará, com uma capacidade nominal de 1,8 milhão toneladas de placas e 700 mil toneladas de semi-acabados.
Ferreira negou que os projetos não sejam lucrativos para a Vale, como criticaram alguns analistas de mercado.
‘Uma empresa como a Posco não virá para perder dinheiro’, disse.
A participação da Vale começa com 50 por cento, mas será reduzida para 20 por cento em 2014, aumentando a participação dos sócios no empreendimento.
Ele disse ainda que o projeto de níquel em Nova Caledônia, na Oceania, começará a produzir no quarto trimestre de 2011.
ROYALTIES
Ferreira avalia que a elaboração do novo marco regulatório trata de questões importantes para o futuro do setor de mineração –e o royalty é uma dessas questões.
‘Tenho certeza de que o governo é muito sensível e vai manter a competitividade da indústria nacional’, disse.
Fonte: Reuters
